Recuperação das áreas impactadas pelo rompimento de barragem, aos poucos, avança em Brumadinho

Recuperação das áreas impactadas pelo rompimento de barragem, aos poucos, avança em Brumadinho


Recuperação das áreas impactadas pelo rompimento de barragem, aos poucos, avança em Brumadinho. Trecho da área impactada de 3,3 hectares em processo de reflorestamento
De semente em semente, com o uso técnicas inovadoras e sustentáveis, a recuperação das áreas degradadas pelo rompimento da barragem B1 em Brumadinho (MG), aos poucos, respeitando o tempo da natureza, segue avançando. Estão em processo de reflorestamento 15 hectares de áreas diretamente impactadas pelo rompimento e pelas obras emergenciais, incluindo áreas protegidas como reservas legais e Áreas de Preservação Permanente/APP. A previsão é que 23 hectares já estejam em processo de reflorestamento até o fim de 2021, com o plantio de aproximadamente 30 mil mudas de espécies nativas da região.
Um importante indicador do avanço das ações ambientais é o registro, por câmeras de calor e movimento, do retorno de animais silvestres afugentados pelo rompimento como jaguatiricas, tamanduás, pacas, tucanos e onças-pardas transitando novamente pela região. Os animais são peças fundamentais para o equilíbrio dos ecossistemas e para a melhoria dos processos de recuperação uma vez que atuam como importantes agentes polinizadores e dispersores de sementes.
Sebastião Venâncio Martins, professor do Laboratório de Restauração Florestal da Universidade Federal de Viçosa (UFV), acompanha o desenvolvimento do trabalho e destaca a efetividade da operação. “Na área com mais tempo de plantio, com 18 meses, a situação é muito positiva. Contribui muito o fato de as áreas estarem cercadas com floresta nativa, que é uma paisagem muito favorável à restauração”, avalia.
Estudos para selecionar espécies
O planejamento de recuperação ambiental é cuidadoso e passa por uma série de etapas. “Vai desde estudos de conservação da flora da região, passando pelo conhecimento tradicional e científico das espécies que ocorrem na região e pela marcação das matrizes que irão fornecer sementes e dar origem a novas árvores que vão colonizar essas áreas”, explica o Analista Ambiental da Vale, Diego Aniceto. Ele esclarece que o planejamento é acompanhado por órgãos ambientais e auditorias independentes.
O detalhamento no processo de seleção das espécies é fundamental para dar início a uma nova etapa: a coleta de sementes e o encaminhamento para se transformarem em mudas. E depois, a transferência delas para as áreas de plantio.
Após a coleta, em alguns casos, é preciso que seja feita a retirada das sementes dos frutos, que varia de acordo com a espécie. No caso de frutos carnosos, como os de algumas palmeiras, o processo utiliza água e peneiras de diferentes tipos, sempre manualmente e com cuidado. Para os frutos secos, é preciso colocá-los à sombra em um local ventilado para facilitar a extração das sementes. Depois disso, as sementes são limpas e armazenadas em embalagens especiais, fincando prontas para iniciar sua jornada para a vida.
“Utilizar as sementes de espécies nativas indica que a recuperação das áreas está sendo realizada da forma mais harmoniosa possível, evitando a disseminação de espécies invasoras que podem competir por espaço e prejudicar o ecossistema”, ressalta o professor Venâncio.
De semente à muda
A transformação da semente em muda começa em uma viagem de quase 700 km entre Brumadinho e a Reserva Natural Vale (RNV), em Linhares (ES), sendo a maior parte desse trajeto feita nos trens da Estrada de Ferro Vitória Minas. A área de 23 mil hectares é destinada à conservação e à pesquisa científica, com expertise e capacidade de produção de até três milhões de mudas por ano.
Na RNV, as sementes são colocadas para germinação e quando alcançam o tamanho ideal estão prontas para voltarem a Brumadinho como mudas. Chegando em “casa”, durante um período mínimo de 15 dias, são hospedadas em um viveiro de espera na região próxima às áreas de restauração. Lá, elas passam por um processo de adaptação antes do plantio, chamado de rustificação. Após está etapa, estão aptas para serem plantadas.
“A recuperação ambiental é um processo longo. Estamos tentando fortalecê-lo, aplicando diferentes técnicas de restauração, inovadoras e sustentáveis”, afirma Aniceto.
Sementes nativas se transformam em mudas e, aos poucos, são reinseridas na região impactada
Divulgação
Aniceto explica que entre as técnicas utilizadas estão a bioengenharia para recuperar o solo e controlar a erosão, etapa importante para resgatar com efetividade o equilíbrio geomorfológico e ecológico da região; o resgate de DNA de árvores nativas, em parceria com a Universidade Federal de Viçosa (UFV), que está sendo utilizado pela primeira vez no mundo para acelerar o florescimento das plantas; além do projeto Sementes, que visa recuperar as áreas impactadas através de sementes nativas.
“Além de devolver a vegetação ao local, a recuperação das áreas impactadas pelo rompimento também promove a captura de CO2 da atmosfera, e consequentemente, desempenha um papel importante no combate à intensificação do Efeito Estufa”, comenta o analista da Vale.
Remoção de rejeitos é o primeiro passo
Para a revegetação acontecer, o primeiro passo é a remoção dos rejeitos que vazaram da barragem, atividade fundamental para apoiar as buscas. Somente após a liberação das áreas pelo Corpo de Bombeiros, o planejamento da recuperação é iniciado, já que a busca pelas vítimas não encontradas é prioridade. Dos cerca de 9 milhões de m3 de material, 50% já foram manuseados e dispostos na cava da mina Córrego do Feijão. Além disso, projetos são submetidos à aprovação dos órgãos ambientais antes do início das atividades de recuperação.
Sobre o reflorestamento, o professor Sebastião Venâncio destaca ações importantes realizadas pela Vale e que são um diferencial para o sucesso da restauração, como a boa diversidade de espécies, a irrigação em períodos secos, o uso de protetores de biomanta, chamados de “manchões”, que são colocados ao redor das mudas para evitar a competição com a braquiária e outras gramíneas e reter a umidade no solo.
Animais começam a retornar
Onça-parda registrada pelo dispositivo de captura de imagens e calor.
Divulgação
O trabalho no Laboratório de Restauração Florestal da UFV é determinante no processo de seleção das espécies. De acordo com Sebastião Venâncio, trazer espécies de outros estados pode acarretar problemas genético.
“Temos apoiado o uso de espécies nativas. Estamos montando experimentos não só de plantios de mudas, mas de outras técnicas, de instalação de poleiros, transposição de galharias, semeadura direta, tudo isso visando criar uma heterogeneidade maior na paisagem”, diz.
O trabalho de restauração também conta com o empenho de órgãos públicos e de moradores da região. Desde 2019, já foram coletados cerca de 600 kg de frutos e sementes de 80 espécies diferentes. Com isso, 200 mil mudas foram produzidas e estão sendo plantadas aos poucos em áreas impactadas e áreas de compensação.
“A flora contribui para a fauna e a fauna contribui para a flora", lembra Aniceto. “A gente já consegue visualizar o retorno de alguns animais silvestres e isso é importante, porque eles são dispersores de sementes e contribuem para que a ciclagem dos nutrientes possa ocorrer. Eles atraem outros animais, predadores, para que esse ciclo possa se fechar e, assim, a floresta voltar a ter todos os componentes necessários para exercer sua função natural”.

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Redação

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