Júri da Kiss: 9º dia do tem interrogatórios dos réus e início dos debates entre acusação e defesas

Júri da Kiss: 9º dia do tem interrogatórios dos réus e início dos debates entre acusação e defesas


Três dos quatro réus foram ouvidos nesta quinta-feira (9): Mauro Hoffmann, Luciano Bonilha Leão e Marcelo de Jesus. Depois, Ministério Público, assistentes de acusação e advogados de defesa iniciaram os debates, que encerraram às 23h40. Jader Marques, advogado de Kiko Spohr, sócio da Kiss
Juliano Verardi / IMPRENSA TJRS
O 9º dia do júri da boate Kiss, no Foro Central, em Porto Alegre, marcou, nesta quinta-feira (9), mais uma transição: do fim dos interrogatórios dos réus para o início dos debates entre a acusação (Ministério Público e assistentes) e as quatro defesas.
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Luciano Bonilha Leão, Mauro Hoffmann e Marcelo de Jesus dos Santos foram ouvidos. Elissandro Spohr já havia sido interrogado na quarta-feira (8).
O primeiro a falar foi o ex-produtor da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Bonilha Leão. Ele adquiriu o artefato pirotécnico que iniciou o fogo na boate.
"Se eu tivesse morrido lá, hoje sentada aqui tem a maior joia da minha vida, que é a minha mãe. Ela ia tá ali sentada com eles [familiares]", disse.
"Tenho consciência tranquila que não foi meu ato que tirou a vida desses jovens. Se for pra tirar as dor dos pais, eu tô pronto, me condenem", afirmou.
'Se for pra tirar a dor dos pais, me condenem', diz réu pelo incêndio na boate Kiss
Ele contou que a banda já havia feito ao menos nove shows com artefatos pirotécnicos. Na Kiss, ele recorda de duas apresentações com fogos. Luciano afirmou que a banda não sabia que o teto do palco havia sido rebaixado e revestido de espuma. "Se acreditava que era tudo seguro", disse.
Luciano contou que começou a trabalhar com a banda a convite do gaiteiro Danilo Jaques, que faleceu na tragédia. Foi a pedido de Danilo que Luciano comprou os artefatos pirotécnicos que a banda usou no palco.
"Ele me designou o que eu tinha que comprar. O Danilo gostava as coisas tudo certinho. Era muito organizado. Eu cheguei lá, o rapaz [da loja] entregou, e eu levei pro Danilo".
Luciano contou desconhecer que tipo de fogo era usado, nem que ele poderia ser acionado em locais fechados. "Acho que era o que eles usavam [nos shows]", citou.
Luciano Bonilha é o segundo acusado a depôr no julgamento da Kiss
Reprodução/RBS TV
'Não tinha a chave da Kiss', diz sócio
O outro sócio da Kiss, Mauro Hoffmann, foi o segundo a falar nesta quinta. Segundo Mauro, ele nem sequer tinha a chave da boate. "Nunca me intitulei dono. Eu não tinha a chave da Kiss", disse.
Ele contou como entrou na sociedade da Kiss. "Não fiz o negócio pelo dinheiro, foi como uma segurança. Se me tiram a Absinto, tenho uma segurança. Tenho família, tenho conta", afirmou.
Hoffmann pagou R$ 200 mil à vista e seis parcelas de R$ 50 mil pela entrada na sociedade. Ao adquirir a parte da boate, ele não sabia que o local era alvo do Ministério Público em razão do som alto. Ele então tentou sair da sociedade, mas acabou ficando, depois que o TAC foi firmado.
"Disse: 'tô fora, me devolve meu dinheiro, não quero passar por isso'", afirmou.
Na noite da tragédia, Mauro havia passado na boate cedo e ido pra casa. Foi avisado pelo sócio Elissandro sobre o incêndio, e voltou correndo para a Kiss.
"Chego lá em cima, a situação era terrível. Era muita fumaça, as pessoas trancaram muito no [ponto de] táxi. Uma tragédia é uma sucessão de pequenas coisas. Tudo atrapalhou. Mas o que mais atrapalhou foram os táxis", opinou. Ele descreveu que as pessoas se amontoavam na saída da boate, onde havia um ponto de táxi.
Mauro Hoffmann, sócio da Boate Kiss, depõe no júri
Reprodução/RBS TV
'Entrei em desespero no palco', diz vocalista
O vocalista da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos foi o responsável por erguer o artefato pirotécnico que iniciou o incêndio ao tocar a espuma que revestia a boate. Em interrogatório, ele disse que era comum o uso de artefatos nos shows.
"Era usual. Todo mundo sabia, nunca foi escondido de ninguém", afirmou.
Ele descreveu como iniciou o fogo no dia 27 de janeiro. A banda já havia tocado um bloco de músicas e iniciou "Amor de Chocolate", do cantor Naldo. Foi durante essa música que Marcelo recebeu o artefato, acoplado em uma espécie de luva, e que foi acionado no refrão, quando o cantor ergueu a mão.
Vocalista da banda conta como começou o incêndio na boate Kiss durante o júri
"Fiz a coreografia. Tirei a mão, o Luciano tirou a luva de mim, guardou, continuamos tocando", disse. Logo depois, foi advertido de que o teto pegava fogo. "No que olhei, tinha uma bola, uma chama assim que nem a de fogão. No que eu olhei ali já vinha rapaz com extintor", descreveu.
Ele relata ter largado o microfone, pegado o extintor e gritado "fogo" para quem estava próximo.
"Eu disse vou apagar. Na minha cabeça eu ia apagar. Tive uma chance só de apagar o fogo e a chance que eu tive eu não consegui. O extintor não funcionou. Entrei em desespero de cima do palco, não sabia o que fazer", relatou, emocionado.
Ele perdeu a consciência e foi retirado da boate por seu irmão, Márcio, que também tocava na banda. Já do lado de fora, foi levado ao estacionamento de um supermercado.
"Quando olhei, tava no meio das pessoas mortas", disse.
Júri da Kiss: Marcelo de Jesus do Santos
Reprodução/TJ-RS
Debates
Após o interrogatório dos réus começou a fase de debates. Acusação, que compreende Ministério Público e assistentes de acusação, teve 2h30 para falar aos jurados. Depois, advogados de defesa dos réus também tiveram 2h30 divididas entre eles.
O Ministério Público começou a falar por volta das 16h15. O promotor David Medina destacou sobre alguns elementos falados durante o júri, como a espuma tóxica, os extintores e a indicação de luzes de emergência dentro da boate.
"Está lá no laudo que houve espuma tóxica. Tinha indicação de luzes? Olha o parecer! Me expliquem se tinha indicação de saída, por que tanta gente morreu assim no banheiro, excelências? Empilhadas num banheiro, seguindo a luz. A única luz que tinha", disse o promotor David Medina.
Depois dele, foi a vez do assistente de acusação que representa as famílias das vítimas, Pedro Barcelos. "Se não tivessem posto fogo na boate, as pessoas não iam morrer. E o Mauro e o Kiko são os proprietários e liberaram pra botar fogo. Como o Luciano e o Marcelo nos falaram", assinalou.
Promotora Lúcia Helena Callegari no júri da Kiss
Juliano Verardi / IMPRENSA TJRS
Por fim, a promotora Lúcia Helena Callegari mostrou vídeos do início do incêndio e falou sobre cada um dos réus.
"O que se discute sempre é que as condutas foram de assumir o risco de matar. […] Nós tínhamos laudos feitos que permitiam 691 [na abertura]. Daí eu ouço as defesas dizendo que o laudo do IGP dizia 749 pessoas. Mas quando eu abri era 691 entre funcionários e presentes. E a gente ainda tem que ouvir aqui que ninguém queria superlotação", falou.
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Entre as defesas, o primeiro a falar foi o advogado de Elissandro Spohr, Jader Marques. Ele disse que, conforme a defesa, não há dolo eventual no caso.
"Quando eu falo em ausência de dolo eventual eu estou dizendo que ele não assumiu o risco de produzir o resultado e não aceitava esse resultado", citou.
"O crime não é de homicídio, o crime de incêndio com o resultado morte. É isso que nós pedimos", disse Marques.
"Elissandro, no máximo, concorreu ao crime de incêndio ao colocar espumas, havendo show pirotécnico na boate", diz tese da defesa exibida no telão do plenário.
Jader Marques, advogado de Kiko Spohr, sócio da Kiss
Juliano Verardi / IMPRENSA TJRS
A advogada Tatiana Borsa, que defende Marcelo de Jesus, falou sobre as responsabilidades do poder público. "Todos nós somos culpados desse crime. Porque nós não exigimos o que temos que exigir", sublinhou.
Ela também destacou a morte de um amigo de Marcelo, mostrando em um telão a foto do gaiteiro da banda Gurizada Fandangueira. "Eles tão sendo acusados de matar o Danilo [gaiteiro da banda]. Eles estão sendo acusados de assumir o risco de matar", diz a advogada.
Tatiana Borsa, advogada de Marcelo de Jesus, vocalista da Gurizada Fandangueira no júri da Kiss
Juliano Verardi / IMPRENSA TJRS
Os dois advogados de defesa de Mauro Hoffmann, Mário Cipriani e Bruno Seligmann, sustentaram que Mauro não contribuiu para as mortes e que não há nenhuma prova do envolvimento dele.
"Eu preciso saber o que ele [Mauro] fez. O Ministério Público não me deu isso. Não veio uma prova sequer de que o Mauro tinha poder de mando ou decisão. As pessoas que falaram isso na delegacia mudaram totalmente isso quando ouvidas com calma", destaca Cipriani.
Mário Cipriani, advogado de Mauro Hoffmann, réu do incêndio na boate Kiss
Juliano Verardi / IMPRENSA TJRS
Os advogados de Luciano Bonilha Leão, Gustavo Nagelstein e Jean Severo foram os últimos a falar pelas defesas.
"A gente chega ao absurdo de estourar a responsabilidade nesse rapaz", diz o advogado Nagelstein sobre Luciano.
"Se os senhores condenarem esse homem, vossas excelências vão estar dizendo que não há problema nenhum no nosso sistema. Mas ao absolver, vão estar dizendo nós não concordamos com esse sistema. Nosso sistema é falho", completa.
Jean Severo, advogado de Luciano Bonilha, réu pelo incêndio na boate Kiss
Matheus Beck/g1
Ao final do tempo de debates, o juiz Orlando Faccini Neto questionou o MP sobre a réplica e, ao receber uma resposta afirmativa, encerrou a sessão e agendou o retorno para as 10h desta sexta (10).
A acusação falará pela manhã, as defesas, a partir das 13h15, e, ao final, ele se reunirá com os jurados para definir a sentença.
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Quem são os réus?
Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, 38 anos, era um dos sócios da boate
Mauro Lodeiro Hoffmann, 56 anos, era outro sócio da Boate Kiss
Marcelo de Jesus dos Santos, 41 anos, músico da banda Gurizada Fandangueira
Luciano Augusto Bonilha Leão, 44 anos, era produtor musical e auxiliar de palco da banda
Entenda o caso
Os quatro réus são julgados por 242 homicídios consumados e 636 tentativas (artigo 21 do Código Penal). Na denúncia, o Ministério Público havia incluído duas qualificadoras — por motivo torpe e com emprego de fogo —, que aumentariam a pena. Porém, a Justiça retirou essas qualificadoras e converteu para homicídios simples.
Para o MP-RS, Kiko e Mauro são responsáveis pelos crimes e assumiram o risco de matar por terem usado "em paredes e no teto da boate espuma altamente inflamável e sem indicação técnica de uso, contratando o show descrito, que sabiam incluir exibições com fogos de artifício, mantendo a casa noturna superlotada, sem condições de evacuação e segurança contra fatos dessa natureza, bem como equipe de funcionários sem treinamento obrigatório, além de prévia e genericamente ordenarem aos seguranças que impedissem a saída de pessoas do recinto sem pagamento das despesas de consumo na boate".
Já Marcelo e Luciano foram apontados como responsáveis porque "adquiriram e acionaram fogos de artifício (…), que sabiam se destinar a uso em ambientes externos, e direcionaram este último, aceso, para o teto da boate, que distava poucos centímetros do artefato, dando início à queima do revestimento inflamável e saindo do local sem alertar o público sobre o fogo e a necessidade de evacuação, mesmo podendo fazê-lo, já que tinham acesso fácil ao sistema de som da boate".
VÍDEOS: Caso Kiss

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Redação

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