Júri da Kiss: 7º dia tem depoimentos de técnico de som, ex-chefe dos Bombeiros e outras duas pessoas

Júri da Kiss: 7º dia tem depoimentos de técnico de som, ex-chefe dos Bombeiros e outras duas pessoas


Ex-técnico de som da banda Gurizada Fandangueira, Venâncio da Silva Anschau, ex-chefe do Corpo de Bombeiros Gerson da Rosa Pereira, arquiteta Nívia da Silva Braido e Nilvo José Dornelles, ex-dono de uma boate em Santa Maria. Juri da Kiss
TJ-RS
Mais quatro pessoas foram ouvidas pelo Tribunal do Júri da boate Kiss, em Porto Alegre, nesta terça-feira (7). O primeiro depoimento, iniciado pela manhã, foi do ex-técnico de som da banda Gurizada Fandangueira, Venâncio da Silva Anschau, indicado pela defesa de Marcelo de Jesus. À tarde, foram ouvidos a arquiteta indicada pelo Ministério Público Nívia da Silva Braido e o ex-chefe dos bombeiros Gerson da Rosa Pereira, arrolado pela defesa de Elissandro Spoh. Já a noite, o dono de outra casa noturna de Santa Maria em que a Gurizada Fandangueira tocava, Nilvo José Dornelles foi ouvido. Ele também foi chamado pela defesa de Marcelo.
AO VIVO: Acompanhe julgamento dos réus no caso Kiss
'Errei', diz técnico que desativou áudio do palco
'Errei', diz técnico que desativou áudio do palco durante incêndio na Kiss
Primeiro a ser ouvido nesta terça, o ex-técnico de som da banda Gurizada Fandangueira, Venâncio da Silva Anschau contou que desligou o áudio do palco ao ver que o fogo tinha iniciado.
"Eu não tenho dimensão, não imagino o que esteja acontecendo e eu desligo os microfones. Eu desabilitei. Errei", disse, chorando.
Ele confirmou que já havia visto a banda usando artefatos pirotécnicos anteriormente, tanto na Kiss quanto em outros locais. No dia da tragédia, ele afirma que não viu o fogo iniciando.
"Olho pro palco e Marcelo [de Jesus, vocalista e um dos réus] e Márcio [irmão de Marcelo, percussionista da banda e depoente no processo] se direcionam à esquerda do palco, olham pra cima e gesticulam. Alguém sobe no palco, de fora. Ela tem um extintor. E eu fecho o áudio da banda. Não sabia o que tava acontecendo", relatou.
Venâncio também contou que ele e os integrantes da banda gritavam para quem estava próximo sair após o início do fogo. O extintor utilizado não funcionou, segundo a testemunha.
Anschau explicou que fechou o áudio por uma questão técnica. A banda iniciava o show com os microfones fechados e eles eram abertos posteriormente, com o andamento da apresentação. Uma tecla na mesa de áudio servia de atalho para isso fosse feito de forma rápida. Antes de perceber o incêndio, o técnico optou por fechá-los. Disse que fez isso porque viu que algo acontecia no palco, mas não sabia o que era.
"Podia ser de alguém ter invadido o palco, aí, era rápido de fechar o áudio", conta. Ele afirma que não tinha visão do palco de onde trabalhava.
Venâncio Anschau em depoimento durante julgamento do caso Kiss
Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul/Divulgação
Arquiteta diz que alertou sobre o risco de não ter responsável técnico
Nívia da Silva Braido, arquiteta indicada pelo Ministério Público relatou que foi consultada por um dos proprietários da boate, o réu Elisandro Spohr, sobre a instalação de um papel de parede na casa noturna.
Ela diz que conheceu o projeto de reforma que era feito na boate, antes da tragédia, em que os ambientes foram modificados, como o palco. "Me surpreendi com o tamanho da obra. Era uma obra grande. Foi construída uma parede de pedras, mudado o palco de lugar. Alertei-o sobre o risco de não ter um responsável técnico", afirmou.
Nívia afirmou ainda que se ofereceu para assumir a responsabilidade do projeto. "E aí ele [Kiko Spohr] me disse que precisaria conversar com o sócio sobre o orçamento", relatou. A obra foi feita para adequações na boate em razão de reclamações do barulho.
Um termo de ajustamento de conduta (TAC) com o Ministério Público foi firmado para as mudanças. Nívia relatou que não tinha conhecimento do TAC.
Nívia foi ouvida como informante, e não testemunha, após pedido das defesas apontando que ela havia sido namorada de um ex-advogado da associação das vítimas da tragédia, o que foi acatado pelo juízo.
Segundo especialista ouvido pelo g1, na condição do informante o depoente "corre o risco de ser parcial".
Nívia da Silva Braido, informante do júri da Kiss
Reprodução/TJ RS
'Alvará estava vencido'
O diretor do Departamento Administrativo do Corpo de Bombeiros Militar e ex-chefe do Corpo de Bombeiros Gerson da Rosa Pereira, de 56 anos foi o terceiro a ser ouvido. O depoimento se estendeu até a noite.
Gerson foi o primeiro condenado criminal pelo incêndio, por fraude processual, em 2015.
"Hoje passados oito anos, a gente fica com estresse pós-traumático, e a gente acaba perdendo muito a memória, situações que a gente não lembra mais", contou em plenário, emocionado. Ele diz que não consegue lembrar de como era a boate, mas que recorda das situações que viveu no atendimento à ocorrência.
Ele descreveu como organizou a atuação dos bombeiros na noite da tragédia, que definiu como "sui generis, totalmente diferente daquilo que a gente se preparou tecnicamente", disse.
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O magistrado perguntou a Gérson sobre o processo, e ele considerou "ridículo" o indiciamento. Após abordar diversos assuntos, respondeu ao juiz. "No dia seguinte [da tragédia], tive homenagem no Palácio Piratini do Tarso Genro [ex-governador do estado] e do secretário de Segurança. No outro dia, nós éramos facínoras", disse.
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Gerson explicou que foi condenado por assinar documentos nos quais incluía um cálculo populacional da boate de 691 pessoas e que teria sido adulterado. Ele também confirmou que a casa noturna estava com a licença de operação fora de validade.
"O alvará estava vencido. Em agosto de 2012 já tinha expirado", disse. "Na época, não impedia de continuar operando. Tinha que entrar no Corpo de Bombeiros com pedido de renovação e os bombeiros iam para fazer a vistoria para ver se o projeto com a obra construída e projetada correspondiam um com outro e treinamento de pessoal. Mas nada obstruía que continuasse com as atividades", acrescentou.
Juiz Orlando Faccini Neto (ao fundo) chamou a atenção do coronel Gérson Pereira, do Corpo de Bombeiros, durante júri da Kiss
Juliano Verardi / IMPRENSA TJRS
Ex-dono de boate também depõe
Nilvo José Dornelles, que estava previsto para ser ouvido na quarta-feira (8), foi adiantado para esta terça (7). Ele foi indicado pela defesa de Marcelo de Jesus dos Santos, vocalista da banda Gurizada Fandangueira, por ser proprietário de outra casa noturna, a Ballare, em que o grupo se apresentava em Santa Maria.
Por volta das 21h15, ele começou a oitiva e disse ao juiz Orlando Faccini Neto que o grupo se apresentou em sua boate no sábado anterior à tragédia. Ele confirmou que o uso de pirotecnia era comum entre a banda e demais artistas musicais que atuavam na casa.
"Sempre. E não só eles, as outras bandas também", disse.
Nilvo falou que havia renovado o alvará de funcionamento de sua casa noturna na quarta-feira anterior à tragédia na Kiss. Ele citou, ainda, que comprou o prédio pronto, mas que tinha materiais semelhantes à Kiss, como lã de vidro e espuma.
A testemunha destacou ainda que não era comum as bandas pedirem autorização para o uso de artefatos pirotécnicos nos shows.
Nilvo é ex-dono de uma boate em Santa Maria
Reprodução / TJ-RS
Veja os depoimentos dos sobreviventes:
Kátia: 'comecei a gritar que não queria morrer', diz ex-funcionária que teve corpo queimado
Kelen: 'última vez que corri foi para tentar me salvar', diz sobrevivente que teve perna amputada
Emanuel: 'não soou alarme', conta sobrevivente especialista em prevenção de incêndio
Jéssica: 'vi quando pegou a faísca', conta sobrevivente que perdeu irmão
Lucas: 'eu desmaiei, fui muito pisoteado', diz DJ da boate
Érico: 'ajudei até o final', conta barman que ajudou no socorro às vítimas
Maike: 'parecia que estava respirando fogo'
Cristiane: 'aquilo era um filme de terror'
Delvani: 'fui caindo e me despedindo da minha família'
Doralina: 'lembro de muito grito, muita confusão', diz ex-segurança
William: 'ele queria voltar', diz sobrinho sobre Kiko
Nathália: 'não tinha a menor ideia que era fogo', diz esposa de um dos réus
A expectativa é de que nesta quarta-feira, a partir das 9h sejam ouvidos o ex-prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer, o promotor Ricardo Lozza, ambos arrolados pela defesa de Kiko, Fernando Bergoli, publicitário e Geandro Kleber de Vargas Guedes, trabalhava em uma empresa de distribuição de bebidas, arrolados pela defesa de Mauro Hoffmann.
O juiz Orlando Faccini Neto explicou que, como o incêndio da Kiss deixou 636 sobreviventes e seria impossível ouvir todas as pessoas, acusação e defesas puderam indicar algumas para o júri. Embora indicadas pelas partes, os sobreviventes não são considerados como testemunhas.
O que disseram as testemunhas e informantes:
Engenheiro diz que sugestão de sócio para instalar espuma acústica era 'leiga e ignorante'
'Artefatos não podem ser usados em ambiente fechado', diz gerente de loja
Juiz transforma testemunha em informante após filha postar 'apodreçam na cadeia'
'Ele sofre por isso', diz ex-patrão de vocalista da banda ouvido em audiência
'Não era de costume informar as casas', diz testemunha de defesa sobre o uso de fogos nos shows
Testemunha é convertida em informante por responder a processo por falsidade ideológica ligado à boate
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'Alguma coisa me tirou de lá', diz ex-funcionário da boate
Ex-técnico de som diz que desligou os microfones do palco
Arquiteta diz que alertou sobre o risco de não ter responsável técnico na obra da Kiss
Quem são os réus?
Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, 38 anos, era um dos sócios da boate
Mauro Lodeiro Hoffmann, 56 anos, era outro sócio da Boate Kiss
Marcelo de Jesus dos Santos, 41 anos, músico da banda Gurizada Fandangueira
Luciano Augusto Bonilha Leão, 44 anos, era produtor musical e auxiliar de palco da banda
Entenda o caso
Os quatro réus são julgados por 242 homicídios consumados e 636 tentativas (artigo 21 do Código Penal). Na denúncia, o Ministério Público havia incluído duas qualificadoras — por motivo torpe e com emprego de fogo —, que aumentariam a pena. Porém, a Justiça retirou essas qualificadoras e converteu para homicídios simples.
Para o MP-RS, Kiko e Mauro são responsáveis pelos crimes e assumiram o risco de matar por terem usado "em paredes e no teto da boate espuma altamente inflamável e sem indicação técnica de uso, contratando o show descrito, que sabiam incluir exibições com fogos de artifício, mantendo a casa noturna superlotada, sem condições de evacuação e segurança contra fatos dessa natureza, bem como equipe de funcionários sem treinamento obrigatório, além de prévia e genericamente ordenarem aos seguranças que impedissem a saída de pessoas do recinto sem pagamento das despesas de consumo na boate".
Já Marcelo e Luciano foram apontados como responsáveis porque "adquiriram e acionaram fogos de artifício (…), que sabiam se destinar a uso em ambientes externos, e direcionaram este último, aceso, para o teto da boate, que distava poucos centímetros do artefato, dando início à queima do revestimento inflamável e saindo do local sem alertar o público sobre o fogo e a necessidade de evacuação, mesmo podendo fazê-lo, já que tinham acesso fácil ao sistema de som da boate".
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