Júri da Kiss: 5º dia tem sobrevivente relatando tentativa de deixar boate e testemunha convertida em informante


Sócio de empresa que originou a casa noturna e dois sobreviventes foram ouvidos neste domingo (5). Outras 14 pessoas, além dos quatro réus, ainda devem depor no julgamento. Doralina Machado Peres, ex-segurança da Kiss, é ouvida neste domingo (5).
TJ-RS/Divulgação
Mais três pessoas foram ouvidas pelo Tribunal do Júri da boate Kiss, em Porto Alegre, neste domingo (5). O primeiro depoimento, iniciado pela manhã, foi de Tiago Mutti, sócio de empresa que originou a casa noturna indicado pelo réu Mauro Hoffmann. Na tarde, os jurados ouviram os sobreviventes Delvani Brondani Rosso, frequentador da festa, e Doralina Peres, ex-segurança do estabelecimento.
AO VIVO: Acompanhe julgamento dos réus no caso Kiss
Delvani Brondani Rosso relatou que perdeu três amigos no incêndio. O jovem falou do momento em que o fogo iniciou e da tentativa de deixar a boate. O sobrevivente ainda mostrou as cicatrizes que tem na pele.
Sobrevivente, Delvani Rosso, levanta a camisa e mostra marcas das queimaduras
"Quando eu fui caindo, fui me despedindo… da minha família, dos meus amigos. Pedi perdão", disse emocionado.
Delvani afirmou aos jurados que desmaiava e acordava naquela noite, enquanto era atendido. Durante o relato ao júri, familiares deixaram o plenário emocionados.
"Eu olhava pro lado e parecia uma cena de guerra. As pessoas gritando pretas, queimadas, com sangue. Eu gritando 'socorro, me ajuda'. Uma pessoa veio e colocou uma máscara de gás e quando eu respirei, deu uma refrescada, um alívio. Amenizou um pouco", disse.
Sobrevivente da Boate Kiss se emociona durante depoimento
O depoimento do sobrevivente foi interrompido para intervalo por volta de 17h. O juiz Orlando Faccini Neto determinou a realização da oitiva de uma terceira pessoa neste domingo. O número de depoentes será mantido, com três inquirições nos demais dias.
A segurança Doralina Peres relatou como era o trabalho na Kiss, envolvendo a fila de pessoas para ingressar no local e a revista do público. Ela desmaiou no momento do incêndio, quando tentava sair da casa noturna.
"Lembro de muito grito, muita confusão", recordou.
Na segunda (6), o júri será retomado às 9h. Serão ouvidos: a testemunha Stenio Rodrigues Fernandes e os sobreviventes Willian Renato Machado e Nathalia Daronch, todos arrolados pela defesa de Elissandro Spohr.
Veja os depoimentos dos sobreviventes:
Kátia: 'comecei a gritar que não queria morrer', diz ex-funcionária que teve corpo queimado
Kelen: 'última vez que corri foi para tentar me salvar', diz sobrevivente que teve perna amputada
Emanuel: 'não soou alarme', conta sobrevivente especialista em prevenção de incêndio
Jéssica: 'vi quando pegou a faísca', conta sobrevivente que perdeu irmão
Lucas: 'eu desmaiei, fui muito pisoteado', diz DJ da boate
Érico: 'ajudei até o final', conta barman que ajudou no socorro às vítimas
Maike: 'parecia que estava respirando fogo'
Cristiane: 'aquilo era um filme de terror'
Delvani: 'fui caindo e me despedindo da minha família'
Doralina: 'lembro de muito grito, muita confusão', diz ex-segurança
Testemunha convertida em informante
A testemunha Tiago Mutti iniciou seu depoimento por volta das 10h. Contudo, o Ministério Público (MP) questionou a condição, porque o empresário responde a um processo por falsidade ideológica relacionado à boate.
Segundo o MP, a irmã de Mutti era sócia da Santo Entretenimento, mas, na verdade, Mutti é quem dirigia o negócio. O juiz Orlando Faccini Neto avaliou a situação sinalizando que o depoente seria transformado de testemunha para informante.
Mutti era sócio da Santo Entretenimento, sociedade limitada de danceteria, bar e similares, que originou a boate Kiss. Ele transferiu as cotas que possuía para Elissandro Spohr em 2010, no ano seguinte à criação da empresa. Mauro se tornou co-proprietário em dezembro de 2011.
O informante explicou seu envolvimento, bem como da sua família, com o empreendimento. Mutti afirmou que, depois da sua irmã ter feito a entrega da empresa para Spohr, em dezembro de 2009, só voltou a entrar no local três anos depois, em dezembro de 2012.
Durante a tarde, Mutti respondeu ao advogado Jader Marques, que representa o ex-sócio da Kiss, Elissandro Spohr, sobre a estrutura e as reformas feitas na boate.
Nas questões feitas pela promotora Lúcia Helena Callegari, o empresário se disse constrangido e pediu para não responder, em razão do processo por falsidade ideológica.
Informante e advogada de defesa discutem com promotora após tom de perguntas
Até agora, já foram ouvidos dez de 12 sobreviventes arrolados, quatro testemunhas e mais duas desclassificadas para informantes. Mais 13 pessoas ainda devem participar do júri, além dos quatro réus.
O juiz Orlando Faccini Neto explicou que, como incêndio da Kiss deixou 636 sobreviventes e seria impossível ouvir todas as pessoas, acusação e defesas puderam indicar algumas para o júri. Embora indicadas pelas partes, os sobreviventes não são considerados como testemunhas.
O que disseram as testemunhas e informantes:
Engenheiro diz que sugestão de sócio para instalar espuma acústica era 'leiga e ignorante'
'Artefatos não podem ser usados em ambiente fechado', diz gerente de loja
Juiz transforma testemunha em informante após filha postar 'apodreçam na cadeia'
'Ele sofre por isso', diz ex-patrão de vocalista da banda ouvido em audiência
'Não era de costume informar as casas', diz testemunha de defesa sobre o uso de fogos nos shows
Testemunha é convertida em informante por responder a processo por falsidade ideológica ligado à boate
Quem são os réus?
Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, 38 anos, era um dos sócios da boate
Mauro Lodeiro Hoffmann, 56 anos, era outro sócio da Boate Kiss
Marcelo de Jesus dos Santos, 41 anos, músico da banda Gurizada Fandangueira
Luciano Augusto Bonilha Leão, 44 anos, era produtor musical e auxiliar de palco da banda
Entenda o caso
Os quatro réus são julgados por 242 homicídios consumados e 636 tentativas (artigo 21 do Código Penal). Na denúncia, o Ministério Público havia incluído duas qualificadoras — por motivo torpe e com emprego de fogo —, que aumentariam a pena. Porém, a Justiça retirou essas qualificadoras e converteu para homicídios simples.
Para o MP-RS, Kiko e Mauro são responsáveis pelos crimes e assumiram o risco de matar por terem usado "em paredes e no teto da boate espuma altamente inflamável e sem indicação técnica de uso, contratando o show descrito, que sabiam incluir exibições com fogos de artifício, mantendo a casa noturna superlotada, sem condições de evacuação e segurança contra fatos dessa natureza, bem como equipe de funcionários sem treinamento obrigatório, além de prévia e genericamente ordenarem aos seguranças que impedissem a saída de pessoas do recinto sem pagamento das despesas de consumo na boate".
Já Marcelo e Luciano foram apontados como responsáveis porque "adquiriram e acionaram fogos de artifício (…), que sabiam se destinar a uso em ambientes externos, e direcionaram este último, aceso, para o teto da boate, que distava poucos centímetros do artefato, dando início à queima do revestimento inflamável e saindo do local sem alertar o público sobre o fogo e a necessidade de evacuação, mesmo podendo fazê-lo, já que tinham acesso fácil ao sistema de som da boate".
VÍDEOS: Caso Kiss

Use ← →para continuar navegando

Redação

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.