Flagrante dos sonhos: coruja-preta é ave desejada por observadores de natureza

Flagrante dos sonhos: coruja-preta é ave desejada por observadores de natureza


De hábitos totalmente noturnos, vive no alto das florestas e costuma ser mais ouvida do que avistada; subespécie exclusiva da Mata Atlântica está ameaçada de extinção. Coruja-preta mede cerca de 35 centímetros e pesa 390 gramas
Hudson Martins/Arquivo Pessoal
A coruja-preta (Strix huhula) é uma das 26 espécies de corujas que ocorrem no Brasil e se destaca pela raridade (não só no País, mas em grande parte da América do Sul). No território brasileiro flagrar a ave não é tarefa fácil: apesar de se distribuir por quase todo o Brasil, o encontro ocorre geralmente em florestas da região norte e sudeste, somente durante a noite.
Com cerca de 35 centímetros e 390 gramas, a coruja-preta é considerada de médio porte. O nome popular revela as características da plumagem predominantemente preta, com tons de marrom no dorso. As listras brancas na barriga e na face e o bico amarelo contrastam com o restante do corpo e garantem o “charme” dessa rapinante que está na ‘lista de desejos de observação’ do fotógrafo de natureza Thiago Tolêdo.
“Sabe aquele sonho que vem de repente, depois de ver várias pessoas postando fotografias perfeitas de um bicho espetacular, em uma situação super especial? Essa é a minha história com a coruja-preta, e uma história de longa data”, conta.
Coruja-preta é difícil de ser observada na natureza
Em 2014 um amigo de Thiago pediu ajuda para editar uma foto da ave de rapina. O que o observador de aves não esperava, porém, era se surpreender com tamanha beleza da espécie. “Fiquei perplexo e, naquele instante, nasceu uma vontade louca de ver esse bicho tão lindo que eu nem sabia que existia. O Jonatas, meu colega, guiou muitas pessoas que conseguiram na época excelentes fotos, então estava esperançoso que também conseguiria”, detalha.
“Naquele mesmo período fui até Brasília, nós passarinhamos na parte da tarde e quando foi escurecendo fomos até o ponto de observação da coruja-preta. O local era perfeito, mas sabe quando vai passando o tempo e não aparece nada? E para piorar, começou uma chuva torrencial! A frustação veio porque na época, ainda inexperiente, eu acreditava que toda saída seria bem sucedida. Por outro lado, a noite foi repleta de flagrantes legais de outras espécies noturnas, entre elas o curiango-do-banhado (Eleothreptus anomalus). Foi uma noite maravilhosa, mesmo sem encontrar a coruja-preta. Anos se passaram e eu ainda não consegui observar essa ave, mas sei que um dia esse momento vai chegar e eu vou curtir cada segundo”, completa Thiago.
Essa é a maravilha do nosso hobby: nem sempre sai como o esperado, mas quando o grande momento acontece, sempre vale a pena a espera, mesmo que seja de anos
Ornitólogo registrou a ave no Parque Estadual dos Três Picos, no Rio de Janeiro
Luciano Lima/TG
Quem teve a chance de realizar o mesmo sonho foi Oséias Pinheiro. O mecânico automotivo e fotógrafo de natureza que observa aves nas cidades de Rio Claro, Itiraína, Araras e Piracicaba contou ao Terra da Gente, em 2017, que o flagrante da ave de rapina foi o mais desafiador de todos. "Fiquei meses tentando até conseguir um registro dela".
Uma das estratégias para tentar observar a espécie é “seguir” a vocalização, afinal, a ‘fama’ da coruja-preta é a de que ouvi-la é mais fácil do que vê-la. Nos machos, o canto é composto por notas rápidas que aumentam de volume e tom gradualmente, seguido de uma pausa rápida e um assovio explosivo. A vocalização das fêmeas segue o mesmo ritmo, mas com timbre mais agudo.
Ave foi registrada durante uma saída de observação noturna em Brasília
Fernanda Fernandes/VC no TG
A observadora de aves Fernanda Fernandes faz corujadas (saídas noturnas para observação de corujas) no Distrito Federal há quatro anos e desde 2020 se dedica a gravar a vocalização das espécies. "Atualmente meu maior interesse é gravar o canto delas. Para conseguir fotos preciso usar mais o playback, para atraí-las, e isso pode alterar as atividades da ave, caso estejam reproduzindo por exemplo. Desde setembro do ano passado tenho deixado gravadores na mata, nos últimos meses cheguei a colocar seis equipamentos", diz.
Tanta dedicação no registro da coruja-preta resulta em uma série de gravações em áudio e algumas fotos da espécie. Todos os flagrantes têm sua devida importância, mas a observadora lembra com detalhes da primeira vez que observou a ave na natureza. "Foi em Valença (RJ). Elas ficavam em uma praça da cidade e podiam ser vistas empoleiradas, inclusive durante o dia. Foi sensacional! Uma das corujas mais lindas que já vi", conta.
"A segunda vez foi em Chapadão do Céu (GO), com um grande parceiro de passarinhadas da cidade. Também já fotografei a ave em Manaus (AM) e em Januária (MG). Depois disso me interessei por procurar essa espécie no DF. Pesquisando e perguntando para amigos cheguei até o biólogo Wagner Nogueira, que me orientou como procurá-las", finaliza Fernanda.
Coruja-preta tem hábitos nortunos e é dificilmente observada na natureza
Daniel Violin/VC no TG
Existem duas subespécies de coruja-preta: Strix huhula huhula, que ocorre do leste da Colômbia, sul da Venezuela e das Guianas ao nordeste do Brasil, de sul a leste do Peru, nordeste da Argentina, norte do Paraguai e leste do Brasil; e a Strix huhula albomarginata, encontrada no sudeste do Brasil, leste do Paraguai e nordeste da Argentina (exclusiva da Mata Atlântica).
A subespécie exclusiva da Mata Atlântica está ameaçada de extinção, considerada ‘Vulnerável’ no Livro Vermelho da Fauna Brasileira (ICMBio). A perda de habitat é a principal ameaça.
No cardápio da ave estão baratas, mariposas, gafanhotos e besouros, assim como pequenos vertebrados, répteis, morcegos e outras aves. O método de caça é infalível: observar a presa do alto da floresta, em um poleiro, e capturá-la em pleno voo ou no solo.

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Redação

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