‘Como é viver com o HIV atualmente?’: soropositivo e especialistas respondem essa e outras perguntas neste Dezembro Vermelho em Uberlândia

‘Como é viver com o HIV atualmente?’: soropositivo e especialistas respondem essa e outras perguntas neste Dezembro Vermelho em Uberlândia


Muita coisa mudou e viver com o HIV com qualidade de vida se tornou uma realidade. Para entender melhor essas mudanças, a reportagem procurou infectologistas, hospitais e órgãos públicos da cidade. Matheus Maia na fachada da RNP em Uberlândia
Reprodução/Redes sociais
“Não temos que pregar para convertido. Precisamos falar com as pessoas que não sabem sobre o assunto, levar a discussão do HIV para fora da bolha. A Aids não mata, o que mata é preconceito”. A frase é do jornalista e embaixador da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids (RNP Uberlândia), Mateus Maia, em uma conversa com o g1 sobre os avanços e desafios na convivência com o vírus, que são alguns dos temas debatidos na campanha "Dezembro Vermelho".
A reportagem também conversou com infectologistas e procurou o Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e a Prefeitura para saber sobre os cuidados, exames e tratamentos disponíveis na cidade. Confira mais abaixo.
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O diagnóstico de Maia chegou em uma manhã de agosto de 2015, pouco tempo após completar 18 anos. Na época, ele havia ido realizar um teste rápido no Ambulatório Herbert de Souza.
Ao chegar à unidade, por ser jovem e ter um relacionamento estável, ele foi tranquilizado pela enfermeira e pela assistente social. Porém, contrário às expectativas, o resultado foi positivo.
Maia relembrou os primeiros sentimentos pós-diagnóstico — um turbilhão de emoções que, hoje, não são mais as mesmas.
“Eu achei que ia morrer. Achei que tudo aquilo que eu sonhava em construir para mim e para minha vida não ia se concretizar. Acreditei que a doença era terminal”, contou o jornalista.
Ele descreveu essa reação inicial como um resultado do tabu e da falta de informação sobre o vírus. Porém, desde o diagnóstico, muita coisa mudou, principalmente em relação ao conhecimento que ele tinha sobre a doença. Maia atribui parte dessa mudança ao apoio de familiares e pessoas queridas.
“Eu sou ponto fora da curva, porque é um diagnóstico muito doloroso para se contar para os pais e eu fiz isso. Eu tenho uma rede de apoio muito diferenciada em relação a muitas pessoas. O apoio da minha família e dos meus amigos foi o que me deu coragem para sair do armário pela segunda vez”, declarou.
Ainda que tivesse o apoio dos pais, o preconceito não deixou de ser presente. Maia chegou a ser exposto na internet em 2020 — ação considerada crime pela Lei n.º 12.984, de 2014. Esse caso foi uma das motivações para que, atualmente, ele fale abertamente sobre a doença nas redes sociais.
Além da confiança em falar sobre o assunto, outras coisas mudaram na vida dele. Uma delas foi o cuidado com a saúde. Maia contou que, desde o diagnóstico, ele se preocupa mais consigo mesmo.
“Comecei a me olhar mais e a cuidar mais de mim. Fora isso, vivo uma vida normal. Tomo dois comprimidos que garantem a minha qualidade de vida, o coquetel, e não tenho nada a reclamar. Sou um jovem adulto que sai, se diverte e tem uma rotina como qualquer outra pessoa da minha idade”, enfatizou.
Entretanto, mesmo com as mudanças e com os avanços da medicina, Maia reforçou que a Aids continua a ser uma doença que necessita de conscientização e prevenção.
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Imagem de arquivo de exame de HIV
shutterstock
Os primeiros casos de infecção pelo HIV foram identificados nos Estados Unidos, Haiti e África Central nos anos 1977 e 1988. Em 1980, o primeiro caso foi registrado no Brasil. Desde então, foram muitos os desafios para descobrir tratamentos e o funcionamento do vírus.
Atualmente, muita coisa mudou e viver com o HIV com qualidade de vida se tornou uma realidade. Para entender melhor essas mudanças, a reportagem respondeu às seguintes perguntas:
Como se prevenir do HIV?
Quais são os cuidados, exames e tratamentos?
Quais são os principais mitos relacionados a Aids?
Onde buscar atendimento em Uberlândia?
1. Como se prevenir do HIV?
A principal forma de se prevenir contra o HIV é fazer o uso de preservativo durante as relações sexuais. Outro ponto importante, segundo a infectologista e responsável pela Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) do Uberlândia Medical Center (UMC), Carolina Tófolis de Castro, é evitar o compartilhamento de sangue.
Isso porque o contágio pelo HIV se dá de forma principalmente sexual, seguida pelo compartilhamento de sangue através de agulhas, transfusões e partos. A transmissão por suor, saliva, lágrimas, urina e fezes são mitos.
“As formas de prevenção são combinadas. É preciso usar preservativos nos diversos tipos de relações sexuais, usar seringas descartáveis em caso de uso de drogas e usar medicamentos que possam prevenir a transmissão do vírus, a chamada PrEP”, orientou.
O infectologista do Hospital Santa Clara, Romes Rufino de Vasconcelos, completou que, nos casos de mães que têm o vírus, é preciso realizar a profilaxia do recém-nascido. Importante ressaltar que não existe grupo de risco para a doença, por isso, o cuidado vale para todos.
“O que existe são práticas sexuais de risco, aquelas com muitos traumas, fissuras e chances de sangramento. Pode acometer homens que fazem sexo com homens, mulheres, jovens e idosos”, alertou Carolina.
Atualmente, segundo Vasconcelos, a faixa etária de maior prevalência é entre homens dos 20 aos 35 anos, porém, a prevalência em jovens abaixo dos 20 anos e pessoas de maior idade tem aumentado nos últimos anos.
2. Quais são os cuidados, exames e tratamentos?
Teste de HIV
Secretaria Municipal de Governo e Comunicação/Divulgação
Em caso de suspeita de contágio, seja por comportamento de risco ou por manifestação clínica, é preciso procurar um médico para realizar os exames específicos.
"Os exames disponíveis são os sorológicos, usados para investigação e diagnóstico, e os moleculares, que servem para acompanhar o tratamento e potenciais falhas dele”, descreveu Carolina.
A infectologista reforçou que o aconselhado é que as medicações preventivas sejam aplicadas nas primeiras 24h, até no máximo 72 horas, após o contágio suspeito.
Nos casos em que o vírus é identificado, são realizados exames e, então, é iniciado o tratamento com medicamentos antirretrovirais.
“O paciente precisará manter uma rotina de consulta a cada 4 ou 6 meses, a depender da evolução clínica. Se a doença é identificada na fase precoce, com o uso da medicação de forma correta, é possível ter uma vida saudável e tranquila”, acrescentou.
Carolina completou que é possível se relacionar com segurança com uma pessoa com o HIV que faça tratamento regular e esteja com o vírus indetectável no sangue.
3. Quais são os principais mitos relacionados a Aids?
Carolina destacou que os principais mitos ainda estão relacionados à transmissão do vírus, na existência de grupos de risco e na impossibilidade das pessoas viverem com HIV com segurança de não transmitirem o vírus para os parceiros.
“A pessoa vivendo com o vírus indetectável pode viver tanto ou mais que uma pessoa que não tenha o vírus, pode exercer qualquer profissão e se relacionar de forma livre. Para as pessoas que não têm o vírus, cabe se informar corretamente e conviver de forma respeitosa em sociedade”, declarou.
4. Onde buscar atendimento em Uberlândia?
Ambulatório Herbert de Souza HIV Aids em Uberlândia
Reprodução/TV Integração
Tanto os exames, quanto o tratamento de uma pessoa que já viva com vírus, podem ser realizados de forma gratuita através do Sistema Único de Saúde (SUS). Em Uberlândia, há o Ambulatório Herbert de Souza, uma unidade da rede pública de saúde especializada em Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST) e Aids.
O ambulatório funciona das 7h às 16h, na Rua Avelino Jorge Nascimento, nº 15, Bairro Presidente Roosevelt. Devido à pandemia, é necessário realizar agendamento pelo telefone (34) 3215-2444 antes de ir à unidade.
A Prefeitura reforçou que os testes rápidos também estão disponíveis nas seguintes Unidades Básicas de Saúde da Família (UBSFs):
Granada 2;
Santa Luzia;
Shopping Park 2;
Shopping Park 3;
Lagoinha, Aurora;
Canaã 2;
Jardim das Palmeiras 1;
Dom Almir;
Jardim Europa 1;
Monte Hebron;
Bom Jesus;
Jardim Brasília 1;
Jardim Brasília 2;
São José;
Martinésia.
Os exames também podem ser solicitados nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) Santa Rosa, Patrimônio, Tocantins, Nossa Senhora das Graças, Brasil e Custódio Pereira. Além das Unidades de Atendimento Integrado (UAIs) Martins, Tibery e Luizote de Freitas e do Presídio Professor Jacy de Assis.
Para as pessoas vivendo com HIV, há ainda a Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV e Aids (RNP Uberlândia).
Criada em 1999, a instituição é subvencionada pela Prefeitura e oferece serviços de advocacia, psicologia, homeopatia, fisioterapia, nutrição, serviço social, Práticas Integrativas Complementares (PICs), grupos de geração de rendas, visitas, campanhas e palestras de prevenção.
“Atualmente temos no banco de dados 1.400 pessoas e mais de 5.000 pessoas em tratamento. A população pode buscar nosso atendimento de forma espontânea, pelas redes sociais, telefone e encaminhamento de diversos órgãos, principalmente, pelo Ambulatório Hebert de Souza e pela UFU locais de referência do tratamento”, orientou o presidente da RNP Uberlândia, Edval Cantuário.
No HC-UFU, há a Unidade de Especialidades Clínicas, Divisão de Gestão de Cuidado. Conforme o hospital, a unidade contempla a Assistência em Infectologia, responsável pelos pacientes que apresentam doenças infecciosas, tais como o HIV/Aids.
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Redação

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