Aos 24 anos e portadora de endometriose, pesquisadora da UFRGS se torna doutora em tempo recorde com tese sobre doença

Aos 24 anos e portadora de endometriose, pesquisadora da UFRGS se torna doutora em tempo recorde com tese sobre doença


Manoella Treis concluiu o doutorado na UFRGS em 19 meses, período que precisou de autorização especial para ser aprovado. Pesquisadora é uma das doutoras mais jovens do Brasil. Ao defender sua tese de doutorado em 29 de novembro, a pesquisadora Manoella Treis não só conquistou um título importante em sua trajetória acadêmica, mas bateu um recorde: tornou-se a mulher com doutorado mais rápido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Foram 19 meses entre o início do processo e a defesa da tese, período que precisou de autorização especial da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), pois é menor do que o prazo mínimo de 24 meses.
Formada em Processos Gerenciais e mestre em Ciências Sociais, Manoella teve uma motivação especial para escolher o tema de seu doutorado. Sua tese, intitulada "Análise da formação de agenda governamental sobre políticas públicas para mulheres portadoras de endometriose: um estudo de caso sobre o Brasil e a Austrália", aborda a forma como a endometriose é debatida pelo poder público no Brasil.
O assunto interessa especialmente a pesquisadora porque ela, desde muito jovem, é portadora da doença – uma patologia que afeta órgãos como os ovários, tubas uterinas e intestino, causa dor aguda e atinge de 6 a 10 milhões de mulheres no Brasil.
"Eu queria pesquisar algo do qual eu fizesse parte, com o qual eu me identificasse. Numa noite, quando estava acabando o mestrado, acordei com muita dor por conta de uma crise de endometriose. Comecei a pesquisar sobre o assunto e percebi que o Brasil não tinha políticas públicas consolidadas, então decidi abordar isso na minha tese", conta.
Além disso, Manoella é uma das doutoras mais jovens do Brasil – com a tese defendida aos 24 anos, 11 meses e três dias, é considerada a doutora mais jovem pela UFRGS, pelo menos nos último 10 anos. De acordo com o site RankBrasil, a mulher mais jovem a se tornar doutora defendeu sua tese com 26 anos, seis meses e 10 dias.
LEIA TAMBÉM:
UFRGS publica edital do Vestibular 2022; provas serão aplicadas em 12 e 13 de fevereiro
UFRGS participa de projeto com Google e Nasa para monitorar o uso da água na agricultura
'País que não investe em ciência está fadado ao retrocesso', diz professora da UFRGS em lista de 100 cientistas analíticos mais influentes do mundo
Manoella Treis encerrou o doutorado na UFRGS aos 24 anos
Arquivo pessoal
Perfil
Natural de Novo Hamburgo, Manoella Treis fez o mestrado em Ciências Sociais pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (2020) e tem um MBA em Gestão e Desenvolvimento de Projetos orientados pela Inovação na Feevale (2019), sendo graduada em Processos Gerenciais pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (2017). Atualmente, ela é bolsista da SEAD/UFRGS no Projeto de Produção Curso Online sobre Inovação, criatividade e mudança social.
Trancada em casa durante a pandemia, Manoella se dedicou aos estudos O período de pesquisa de Manoella para o doutorado foi também o período em que o mundo lidou com a pandemia de coronavírus e com o consequente isolamento social.
Da cidade do Vale do Sinos, a pesquisadora precisaria se deslocar até Porto Alegre em tempos normais. Com os protocolos sanitários, precisou estudar de dentro de casa – algo que, segundo ela, acabou ajudando no processo.
“Cheguei a ir uma semana para a faculdade, mas logo surgiu a pandemia. O que eu ia fazer em casa? Estudar. Foquei no doutorado e fiz tudo que podia fazer”, diz.
A nova doutora foi orientada pela professora Marília Patta Ramos, que elogia o ritmo da estudante no desenvolvimento da pesquisa.
"Desde o início, notei que havia um diferencial nela. Me interessei pelo ritmo dela, porque sou parecida, então acabamos desenvolvendo um processo de troca muito constante. Não é corriqueiro, normalmente os alunos pedem prorrogação no prazo. Em quase 30 anos como professora, foi a primeira vez que vi. O mérito é dela, que fez por merecer e entregou uma tese em tempo recorde”, conta a orientadora.
Marília ressalta ainda as dificuldades que uma pesquisadora enfrenta durante o processo.
"Enfrentamos uma tremenda desigualdade salarial e de oportunidades, há muita misoginia. Já tive uma solicitação de doutorado recusada porque me disseram que estavam cansados de orientar mulheres que estavam acompanhando os maridos, então é relevante o fato de ela ter conquistado isso como mulher", avalia professora.
Sede da UFRGS, em Porto Alegre
Ramon Moser/UFRGS
Futuro
Agora, Manoella diz que pretende continuar estudante. Mas os recordes que vem batendo já chamaram a atenção e renderam convites de trabalho – que ela ainda avalia. O que a pesquisadora sabe é da importância de buscar o seu espaço.
"Nunca vou parar de pesquisar, é uma das coisas que mais amo. Mas é uma responsabilidade e tanto. Levantar a bandeira da ciência na área de humanas, inspirar meninas a seguirem essa carreira e mostrar que é possível conquistar espaço como pesquisadora no Brasil. Vamos levando nossas pautas para o ambiente acadêmico, o que é muito importante", diz.
VÍDEOS: Tudo sobre o RS

Use ← →para continuar navegando

Redação

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.