A fé que move os observadores de aves


Coluna "Histórias Naturais" relata mais um momento em meio à natureza em busca de espécies raras; procura se assemelha a uma verdadeira peregrinação. Cratera do vulcão Irazú, a 3400 metros de altitude.
Luciano Lima
Quem pratica a observação de aves sabe o fascínio que os momentos em meio à natureza representam a esses verdadeiros "peregrinos" das matas. Na coluna "Histórias Naturais" dessa semana o biólogo Luciano Lima fala da busca por uma pequena coruja num país que é um verdadeiro paraíso para os amantes da natureza: a Costa Rica.
"Como eu vim parar aqui?", era a perguntar que ecoava na minha cabeça enquanto eu ouvia o vento balançar as copas das árvores na escuridão da noite. Mas não era um desses "como eu vim parar aqui?" com ares de lamentação ou indignação. Eu fazia essa pergunta em tom de encantamento, pois estava cercado de pessoas que eu admiro e em um lugar muito especial, próximo ao topo do vulcão mais alto do Costa Rica, o Irazú.
Eu integrava um eclético grupo composto por observadores de aves de diferentes países do mundo, incluindo, além da Costa Rica e Brasil, Colômbia, África do Sul, Israel, Áustria, Inglaterra e Estados Unidos. Todos convidados pelo equivalente ao Ministério do Turismo da Costa Rica para conhecer o país. Nossa visita fazia parte de uma estratégia do próprio governo para promover a Costa Rica como destino para o turismo de observação de aves através de um intercâmbio de ideias e experiências com passarinheiros de diferentes nacionalidades.
Guiados por profundos conhecedores das aves, da natureza e cultura costa-riquenha, durante dez dias visitamos diversos destinos e cruzamos boa parte do país. Apesar do tamanho pequeno se comparado ao Brasil, sendo pouco menor que o estado do Rio Grande do Norte, a Costa Rica é gigante quando o assunto é natureza. Sua rica biodiversidade somada à hospitalidade das pessoas e a um muito organizado plano governamental de promoção do turismo transformou o país em um destino dos sonhos para qualquer pessoa apaixonada por natureza, incluindo observadores de aves.
A corujinha-parda (Aegolius ridgwayi) é uma das menores corujas da Costa Rica.
Mauricio Calderon
Durante a manhã e tarde daquele mesmo dia já havíamos passarinhado nas encostas e na parte mais alta do vulcão Irazú. Encontramos várias espécies que praticamente só ocorrem ali e por isso integram a lista de desejos de qualquer observador de aves que visita a Costa Rica, incluindo, por exemplo o beija-flor-do-vulcão (Selasphorus flammula) e o junco-do-vulcão (Junco vulcani). Mas precisávamos esperar até o cair da noite para podermos tentar conquistar um dos maiores objetivos da viagem inteira, encontrar uma das menores corujas da Costa Rica, a corujinha-parda (Aegolius ridgwayi).
Assim, pouco antes de escurecer nos encontramos próximo à portaria do Parque Nacional Irazú, a cerca de 3 mil metros de altitude. Junto estava um simpático casal que, além de guias de observação de aves, mantém alguns projetos sobre aves da Costa Rica, entre eles o "Proyecto Lechucita Parda", que aos poucos tem contribuído para que a espécie deixe de ser uma das corujas mais enigmáticas do mundo. Após alguns minutos de papo sobre qual seria a nossa estratégia aquela noite, seguimos para o primeiro ponto onde colocaríamos à prova a nossa sorte.
Embora seja parente próximo do igualmente raro caburé-acanelado (Aegolius harrisi), que com sua "maquiagem" negra ao redor dos olhos é, na minha humilde opinião, uma das mais belas corujas brasileiras, a corujinha-parda possui plumagem desbotada e pouco chamativa. Essa ausência de características mais marcantes inspirou o nome em inglês da espécie Unspotted Saw-whet Owl, que traduzindo livremente seria a "corujinha-sem-pintas". Mas quando o assunto é observação de aves "beleza não se põe na caderneta" e para a surpresa de muita gente de fora do mundo da observação de aves, muitas vezes espécies pequenas e de cores discretas podem ser muito mais desejadas do que araras, tucanos e outras aves "colorídeas" mais comuns.
Mesmo caminhando em fila indiana, em silêncio quase absoluto, era nítida a empolgação de todos com a possibilidade de que a qualquer momento poderíamos encontrar uma das aves mais raras da Costa Rica. No primeiro ponto onde havia um território conhecido, Ernesto, o coordenador do projeto, tocou a vocalização da espécie através de uma caixinha de som portátil. Na expectativa, e em absoluto silêncio, esperamos por mais de meia hora sem qualquer resposta. Partimos então para um outro território, que, segundo nossos guias, seria o mais promissor da noite.
Junco-do-vulcão, espécie associada as regiões mais elevadas das cadeias de vulcões da Costa Rica.
Luciano Lima
Após cerca de 40 minutos, mais uma vez esperando em silêncio e também só ouvindo silêncio, nossas esperanças e expectativas foram aos poucos diminuindo. Embora estivéssemos em um lugar onde a espécie era registrada com alguma frequência e guiados por alguns dos maiores conhecedores sobre ela do mundo, passarinhar não significa ter um encontro marcado com as aves, e é isso parte do que torna essa atividade tão fascinante. Além disso, o tempo nublado e com bastante vento também não estava ajudando muito.
Após outra caminhada até o terceiro ponto e mais algum tempo em silêncio, começamos a nos consolar com comentários em voz baixinha do tipo, "muita gente vem aqui e não vê", "não é fácil mesmo", "o tempo está ruim", "pelo menos conhecemos o habitat que ela vive". Continuamos nossa procissão pelo vulcão rumo a nossa quarta e última chance da noite. A barriga já roncava de fome, mas o que incomodava mais era a combinação de meias molhadas com o frio a mais de 3 mil metros de altitude.
Mais uma vez ficamos parados em silêncio na borda da mata esperando qualquer resposta. Apesar da fome, do frio e já quase sem expectativa de conquistar nosso objetivo, me sentia extremamente privilegiado simplesmente por estar ali naquele lugar acompanhado daquelas pessoas. Foi quando me perguntei encantando "como vim parar aqui?". Refletindo, me dei conta que observar aves é uma questão de fé. Afinal, que outra palavra poderia ser usada para descrever nossa peregrinação pelas encostas de um vulcão, movidos pela esperança em encontrar, em meio a escuridão a nas copas de uma floresta densa, uma coruja que mede menos que um palmo.
Após mais algum tempo sem resposta, já havíamos praticamente desistido e nos preparávamos para retornar quando escutamos bem baixinho um canto. Por um instante pensei que o som vinha mais uma vez da caixinha de som, mas não. Na copa de uma das árvores bem na nossa frente um milagre olhava fixamente para nós! O milagre da observação de aves.
*Luciano Lima é biólogo e faz parte da equipe do Terra da Gente.

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